terça-feira, 8 de abril de 2008

Escrevinhações

Papelzinho


Metrô vazio. Uma ou outra pessoa, aqui e ali, esparsas pelo vagão. Já tão tarde não há conversas animadas, nem mesmo os estudantes. Todos já foram embora. E o moço ali, sentado à janela, apoiado no vidro, pacote indecifrável em sacola plástica no colo. Olha seu reflexo no vidro, vê a barba já por fazer ao fim do dia, e pensa. Não se pode saber qual é o pensamento. Pode-se saber que é casado. A mão esquerda segurando o pacote traz uma pálida aliança dourada. Os olhos estão assim nem abertos, nem fechados. Vez por outra, ele cutuca um canto ou outro do rosto, vira-se para olhar-se de outro ângulo, e volta à posição inicial. Não há aparente vaidade. A camisa tem punhos e golas puídos e seu azul todo é desbotado. A costura do bolso já cedeu ao muito uso, e mostra pela transparência um punhado de documentos ali. Um pedaço de papel insiste em não ficar bem acomodado, e ele tem o cacoete de ajeitar o papel a todo instante. Olha-se no vidro, cutuca o rosto, volta a ficar na mesma posição inerte do começo. Ajeita o papel. Inerte novamente. E assim passam-se as estações. Mesmo a gravação com o anúncio dos nomes das estações está fora da ordem, sendo dita com atraso, mas ninguém ali se importa. Tampouco o homem. As portas se abrem nas estações, mas mal há movimento. Todos seguem para a estação principal, para fazer ainda outra baldeação e continuar em outro trem. O homem fecha os olhos por um instante, e ainda assim ajeita o papel no bolso. Suspira fundo, passa a mão pelo rosto todo, como se não soubesse se quer dormir ou despertar. Abre os olhos lentamente, e dá uma olhadela para a moça ao lado, concentrada na leitura de uma revista. Volta a se encostar no vidro, fecha os olhos, ajeita o indisciplinado papelzinho, faz um movimento com a boca como se mastigasse algo invisível, e queda-se inerte.

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