Domingo de manhã.
Dia em que sinto mais falta de morar com meus pais.
É, eu sinto falta de vez em quando. Sinto saudade, aliás. Porque o tempo de morar com eles já passou (é, a gente cresce, amadurece, muda). Meu pai já se foi. Minha mãe mora longe. Mas os domingos com eles são inesquecíveis.
Os domingos começavam, na verdade, tarde da noite, no sábado. Casa de pastor é muito corrida em finais de semana: é boletim da igreja pra fazer (minha mãe datilografava o boletim sábado de manhãzinha e meu pai rodava no mimeógrafo - a tinta, nem era a álcool - pouco antes do almoço), é supermercado, açougue e quitanda, é seminarista chegando pra passar o final de semana... Sempre tinha pelo menos um seminarista lá em casa. Vindo de Campinas. O mais marcante pra mim foi o Tércio: deve ter ficado uns dois anos indo lá, direto. E era divertido, brincava comigo.
Sábado à noite os cheiros na cozinha começavam: comida especial e caprichada (minha mãe morria de dó dos seminaristas que se alimentavam mal durante a semana), aromas de assados no ar, cheirinho de pudim no forno. E meu pai no pé da minha mãe, pra ela largar a cozinha e ir dormir, descansar, dizendo que ele cuidaria de tudo. Foi sempre assim.
Domingo cedinho, meu pai se trancava no escritório. Estava estudando o sermão do culto da manhã, ou preparando a aula da Escola Dominical. Minha mãe estava de novo na cozinha, dando os últimos retoques, deixando tudo pronto pro almoço. A mesa do café sempre estava pronta quando eu acordava. Geralmente acabava tomando café sozinha no domingo, porque tudo era muito corrido. Eu sabia bem o que fazer nas manhãs dominicais: acordar na hora, tomar banho, vestir uma roupa e perguntar pra minha mãe se aquela estava boa, tomar café, tirar a mesa e chegar na igreja na hora certa (levando comigo Bíblia, hinário e revista da Escola Dominical, com a lição estudada). Geralmente me atrasava uns cinco minutinhos. Ia correndo com a mamãe. Meu pai não nos esperava, porque tinha que chegar um pouco mais cedo. Sempre morávamos bem perto da igreja, coisa de um ou dois quarteirões. Já na igreja, tudo se acalmava, e nossa rotina não era mais tão diferente da dos outros fiéis ali. A não ser pelo fato de que éramos os últimos a sair da igreja, por volta de 11h30, com a minha mãe andando rápido à frente pra "ajeitar o almoço". E aí meu pai, mais atrás conversando com o seminarista, ficava perguntando alto "mas você já não fez tudo essa madrugada? Nem foi dormir pra ficar fazendo o almoço"! E aí minha mãe emburrava... e era sempre assim. E era incrível, e era a minha infância, e era a minha família.

Eu me lembro bem do dia desta foto: um domingo de manhã, em Tietê, na volta da igreja. Eu estava bem feliz com a minha sombrinha nova. E não sei o nome dessa árvore aí atrás, mas vira e mexe vejo uma dessas por aí, com flores cor-de-rosa, e me lembro dessa casa, que nem existe mais.