
Um Alfa Romeo me levou pra Caraguá pela primeira vez. Janeiro de 1983. Eu tinha oito anos e fui passar as férias com a minha família numa edícula dos vizinhos de São Miguel Paulista. Acho que o vizinho, Seu Alberto Siqueira (casado com a D. Nancy e pai das minhas amigas Andréia, Patrícia, Luciene e Daniele, além do Robinson, não-meu amigo!) alugou a casa pro meu pai por um preço bacana. Foram férias incríveis. Ainda tinha o Gobbi. E o Ary estava há pouco tempo na família. E tinha todas as minhas amigas. E outras amizades que fiz ali, pela vizinhança da Praia do Indaiá.
Caraguá era bem diferente do que é hoje. O acesso era difícil. Tinha muita queda de barreira na Tamoios. Muitas vezes não dava pra voltar pra São Paulo. Só as ruas do centro da cidade eram calçadas. E tinha a sorveteria Aldo... a melhor do universo. E tinha o pão de queijo da Docimar... e tinha o mar.
A sorveteria Aldo não existe mais. A Docimar existe, mas não é mais a mesma coisa. O mar, graças a Deus, continua o mesmo.
E aí meus pais se apaixonaram por Caraguá, nessa primeira viagem. E sonharam em construir uma casa lá, pra morarem quando se aposentassem. E aí se aposentaram em 97 e foram pra lá. E eu fiquei em Sampa e fui morar sozinha.
Meu pai não está mais lá fisicamente, embora a presença dele esteja na casa toda, o tempo todo. Minha mãe está lá, mudada, mais forte.
Agora, Caraguá é meu refúgio. É inexplicável o que sinto quando vou pra lá. O que sinto quando estou lá, sob aquele teto, aquelas paredes, tão impregnadas dos sonhos dos meus pais. Para os estranhos, é só uma casa. Pra nós, os filhos, é muito mais. Foi muita luta pra conseguir construir. E muita luta pra manter a casa, também. Sinto-me culpada por não poder ajudar... sinto-me mal. E sinto-me bem por saber que meu pai pensou nisso: que a casa seria nosso refúgio. Porque há ocasiões na vida em que PRECISO ir pra Caraguá. Renovar as forças. Pedir uma bênção. Sentir-me amada, acima de tudo. O mar, a cidade, as outras coisas... são só as outras coisas. Mas lá é que é meu chão. Minha raiz. É lá onde me lembro mais de quem sou eu.




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