quinta-feira, 19 de março de 2009

A vida e a época de Kedma Franza, o Gregor Samsa da família

Ontem, durante o ensaio de A Metamorfose com a Cia. dos Imaginários, tive um insight. Aquela coisa de 'e se fosse comigo' me fez perceber que sim, de alguma forma, um dia aconteceu comigo uma metamorfose.

Não sou de uma família de obesos. Não em primeiro grau. Irmãos, mãe, magros. Meu pai era gordinho, mas nunca houve grandes piadas a respeito do assunto, ou qualquer preocupação até o primeiro infarto dele.

E aí eu cheguei: temporã, mas uma criança saudável. Magra, eu diria. Sempre fui taxada de 'alta', mas nunca de gorda. E de tão alta, cresci mais do que as outras da minha turma. Aos 12 anos, tinha um corpo de meninas de 16. Mas minha cabeça era de 12. A cabeça de uma menina filha de pastor com 12 anos. Uma menina assim não poderia admitir ser sexualmente desejável, como já vinha sendo. Homens já mais velhos (com seus 20 e poucos anos) olhavam de um jeito que já denotava um interesse com o qual ela não sabia lidar. E aí começou a engorda. Devagar, primeiro. E de forma acelerada aos 13 anos, com a mudança pra cidade grande e a escola de uma classe social abissalmente distante da sua. 'Melhor se proteger', disse o inconsciente. 'Engorde', continuou ele. E aí uma nova imagem, falsa, se criou. Porque jamais achei legal ser gorda. Jamais achei sexy. Jamais achei bonito. Nem pra mim, nem pra ninguém. Sempre pensava 'poxa, mas se gordo/gorda é bonito assim, imagine magro'. E minha família não sabia o que fazer comigo. Vários episódios estressantes, com todo mundo da família. Rolou desde a ajuda sutil (ganhei uma esteira no aniversário de 20 anos) até o confronto direto, com frases como 'tenho vergonha de sair com você'. Hoje me pergunto se era pra tanto. E não, não era. Talvez o abalo de tanta pressão pra que eu emagrecesse tenha sido mais nocivo do que a própria gordura em si. Porque eu queria me manter também longe dessa família (e hoje entendo mais os motivos disso... papo pra outro post), e sem dúvida a gordura é um obstáculo. A gordura me faz parecer forte. E mantém todos distantes de mim, ser metamorfoseado monstruosamente. Tão bonita... mas gorda. Agora, comigo magra, não sei o que virá. Mas estou disposta a pagar pra ver.

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